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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A Formiga Teresa e a Mamãe Querida.


Uma formiga anda pela pia da minha cozinha.
Como nós adoramos dar nome pra tudo, vamos chamar essa formiga de Teresa (não tenho a mínima idéia se ela é macho ou fêmea, mas como formiga é uma palavra feminina, Teresa me parece um bom nome).
Pois bem, Teresa é uma daquelas formigas que ficam procurando alguma coisa (acho que é comida, mas pode ser qualquer outra coisa, né?).
Teresa tem 3 dias, 6 horas, 9 minutos e alguns segundos de vida, mas já trabalha feito gente (opa! “formiga”) grande. Pensando bem, acho que Teresa nem dorme. De bebezinha (formiguinha) até agora, acho que só tem trabalhado. Pega uma migalha de pão aqui, um farelo de biscoito ali, a metade de um grão de arroz que caiu do prato do meu pai no almoço acolá e leva tudo pra um buraquinho que fica do lado do fogão (eu acho que deve ser a entrada de um formigueiro, mas aquela parede branca nem um pouco se parece com aqueles formigueiros que vemos nos gramados).
(...)
No seu quarto dia de vida, nossa amiga Teresa encontrou um pequeno pedaço de um bolo de chocolate que eu havia comido no dia anterior. Pra mim, aquele pequenino pedaço de bolo era muito, muito pequenino, mas pra Teresa, ainda tão jovem, era algo descomunal (tinha mais de duas vezes o seu tamanho). Mas Teresa não se intimidou: usou suas anteninhas ainda pouco habilidosas para agarrar com força aquele bolo, colocou-o sobre suas costas e começou a carregar-lo para o buraquinho na parede.
(...)
Naquele dia minha mãe havia acordado mais cedo. Tomou um copo d’água, colocou o copo dentro da pia (fez tudo isso ainda com muito sono). Então, por algum motivo qualquer, ela olhou pros farelos de bolo de chocolate que eu havia comido (aí que culpa). Por um instante, minha querida mãe pensou em deixar aquilo pra lá, fazer um café e ligar a televisão, mas não. Pegou um pano molhado que estava na pia, torceu bem forte e num movimento terrivelmente veloz passou sobre as migalhas de bolo. Teresa, ao observar aquele imenso sei lá o quê movimentando-se numa fúria que ela jamais havia visto em qualquer outro objeto, largou o pedaço de bolo e correu. Correu pra qualquer lugar. Correu com toda energia que possuía em seu pequeno corpinho. Correu, correu, correu...
Até que, num movimento quase orquestral, minha mãe abriu novamente a torneira, molhou o pano e depois de dar uma rápida torcida, passou aquele imenso pedaço de tecido úmido sobre o frágil, delicado e desesperado corpo de Teresa.
(um minuto de silêncio)


(...)


Próximo capítulo: “A Dançarina Feliz e O Honesto Alienígena Azul de Cem Quilômetros de Altura”.