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domingo, 18 de outubro de 2009

O menino damião e o Mistério da istêla

"tem estrela do céu

e estrela do mar

então por que não ter

vara de pescar estrela no ar?"


A gente já tinha desvendado alguns mistérios juntos naquela mesma noite. Eu e damião. Mostrei pra ele como a sombra se alimentava de luz, e como podemos representar animais na parede, com a sombra da mão projetada.

Depois eu provei por a mais b que a sua imponente garrafa de água, verde, pomposa, só era grande de perto. E num instantinho damião viu que, de muitão distante, ela cabia dentro dos seus dedinhos minúsculos de menino.

E ainda deu tempo de lhe mostrar, naquele quarto bem, bem escuro (que ele só aceitou entrar quando lhe prometi jamais soltar-lhe a mãozinha), que a santa (de Sant’ana, ou Fátima, tanto faz) acendia no escuro como se tivesse luz própria. Era o pequenino milagre da fosforescência.
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E foi ele mesmo quem concluiu, com a simplicidade do mais simples menino (desculpe, leitor, a tríplice redundância incômoda), que a santa de fósforo era o contrário da sombra: se alimentava da falta de luz.

Mas não teve nem disputa, nem salvação. O que damião se interessou mesmo foi em desvendar o fabuloso mistério da estrela (e eu fiquei com o Mistério, maiúsculo). Pegou a estrela-do-mar de gesso que estava completamente esquecida pelos adultos há bem uns 300 anos em cima da mesa da varanda e perguntou: essa é de vedade?

(É que, há instantes atrás, ainda enquanto a gente passeava com o nosso pacêlo duque, encontramos uma estrelinha azul esquecida (largada) no meio da rua. Eu, o sabido e espertalhão, fui logo tentando arrepiar o menino, inventando que a bicha caíra do céu. damião, nem tchum: nãããão, não é istêla. É azul. Essa istêla é de fazer figura na praia. Istêla de verdade é banca! E não tinha nem como retrucar. A danada da “istêla” azul era a sinceridade em pessoa. Toda malamanhada e gasta, feia até. Nem podia pretender passar de molde plástico pra (mal) reproduzir na areia as distantes e Verdadeiras Estrelas do Céu.)

“Essa é de vedade?” Me pergunta o curioso damião. Eu, já esperto e consciente da ciência do neném, aliviei: não, é uma estrela de mentira. Vê: é amarela. Eis que damião, como mágico de cartola infinita, incansável máquina (ô palavra quadrada, tá fazendo o que em texto de amor?) de surpreender, dispara: essa é de vedade, sim, olhe atrás: é banca!

Não tinha escape. O enfeitezinho de muro cumpria o requisito único e bastante para ser astro: era “banco”. Era branco, era estrela. E agora? Eu, o adulto, com uma estrela de “vedade” na mão e dois olhos virgens de “quiança” fulminando meu corpanzil de gigante: caiu do céu?

Era chagada a hora de damião conhecer o mistério da estrela. Sem conseguir dispensar (e des-pensar também) o semelhante drama vivido por Saint-Exupéry quando enfrentou outro pequeno príncipe, e sem cogitar poder chegar à melhor resposta, soltei: veio, claro. Veio do céu. De onde mais poderia cair uma estrela?

Mas damião, claro, já conhecemos o guri, não se contentaria com palavra (já testada e reprovada) de adulto-sabido. Decidiu de imediato que queria presenciar a queda de uma “istêla” do céu. E não se sabe (nem se saberá, nem se pretenderá saber) de onde coños (junte seus trapos, carregue consigo a máquina lá de cima e parta deste texto, palavra insolente) o menino tirou tal idéia, mas a recomendação já veio assim, seca e direta: fique aí debaixo (do céu, imagine...), disse ele, com essa istêla assim (e fez com as mãos a posição de quem segura uma cesta em prontidão para coletar as mangas que caem do pé), esperando outra istêla cair em cima. Cuidado, não deixe cair, que quebra. Eu vou ficar ali sentado, ispelano.

Aí está. Tava desenhado o meu martírio. Desconsolado, desolado, fraco, impotente, frágil, desesperado. Como é que eu iria explicar ao menino que a bendita estrela não cairia ali, muito menos dentro da concavidade branca de uma estrela-do-mar de gesso amarela, que eu segurava religiosamente “debaixo do céu”? Poderia inventar uma maneira de ludibriar damião? Podia escapar desta parede e seguir com a fantasia (?) de que somos caçadores de mistérios, sim, mas só selecionando aqueles que eu domino e posso lhe mostrar (lhe ensinar) – como a sombra e a fosforescência?

Por fim, veio à tona, rasgou o liame que separa esse daquele, a verdade (que, se não cura, ao menos liberta): nada adiantava fazer. E também eu não quis mais fazer foi nada.

E diante dos olhos espectativos de damião, eu só queria mesmo que a istêla do céu caísse nas minhas mãos.
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