segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Porque além dos homens, outros seres incríveis também habitam o planeta.
Arthur Shopenhauer
domingo, 1 de novembro de 2009
"Eu conheço apenas uma virtude, que é a consciência"
Ser consciente é ser capaz de amar.
(Ana Beatriz Barbosa Silva, Mentes Perigosas).
sábado, 31 de outubro de 2009
Dos avanços tecnológicos...
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
A religiosidade autêntica é o florescer do seu coração.
Na verdade, não há escrituras sagradas em lugar nenhum. As assim chamadas escrituras sagradas nem mesmo provam ser boa literatura. É bom que ninguém as leia porque elas estão cheias de pornografia.
Uma religiosidade autêntica não precisa de profetas, salvadores, livros sagrados, igrejas, papas ou sacerdotes, porque religiosidade é o florescer do seu coração, é chegar ao centro do seu próprio ser.
E, no momento em que você chega ao centro do seu próprio ser, há uma explosão de beleza, de bênção, de silêncio, de luz. Você começa a se tornar uma pessoa totalmente diferente.
Tudo o que era escuro em sua vida desaparece, e tudo o que era errado também desaparece. O que quer que você faça é feito com absoluta consciência.
Eu conheço apenas uma virtude, que é a consciência."
(Osho).
A festa

Organizar festas nunca tinha sido realmente fácil para ele, embora ele sempre tivesse se metido a promoter dos eventos dos colegas. Mas esta noite damião nem estava preocupado. Primeiro porque não era bem uma feeeesta assim, na acepção tradicional da palavra. Segundo porque não tinha como dar errado: “era uma reuniãozinha entre amigos, todos ávidos por aquela mesma ‘vibe’”, pensava ele (tentando mais uma vez afastar da mente essa palavra de que não gostava – estadunidense, “modinha”, mas que sempre surgia como melhor opção pra descrever essa sensação).
A casa era grande, com uma área externa fabulosa, que contava com um jardim muito bem acabado, um vasto espaço com mesas e cadeiras, além de uma piscina imponente. Ali já dera festas memoráveis, é certo, “mas hoje não era pra essas coisas”, pensou. Hoje o modelo de festa era outro; mais para um sarau mesmo, como sempre sonhou (e nunca, até então, tinha conseguido fazer). Preferiu, então, o subsolo da casat: muito menos recursos festivos, claro, mas tinha o suficiente (e adequado).
“Uns foram trazendo um amigo aqui, outro acolá, outros trouxeram suas namoradas, seus namorados, teve gente que trouxe o primo distante que tava hospedado em casa, e por aí vai”, respondeu damião, ao questionamento de um amigo surpreso pelo rumo que aquela festa ia tomando, tão distante do projeto inicial.
Não completara nem a primeira hora e já era a terceira vez que saíam para buscar coisas que julgaram faltosas ali. Primeiro foi a cerveja, depois o gelo e por último o disco da nova banda que estava “bombando” no país.
O subsolo já não abrigava ninguém, todos subiram para a boa e velha área da piscina. Havia mais do que o triplo do número esperado de convidados. Tinha gente caída desacordada por excesso de álcool, homem pelado dentro da piscina, menina carinhosa dando pedaços de presunto ao cachorro, um sujeito dançando com o ouvido colado à caixa de som (esta muito mais potente do que aquela, e que a essa hora tocava estridente um som metálico) e até um casal (ou eram três pessoas?) trancado nas dependências da lavanderia.
“I-s-s-a-q-u-i t-á-m-u-i-t-o-d-e f-u-d-e-r!”, gritava ao pé do ouvido de damião o cunhado da namorada de um outro amigo seu.
E estava mesmo “d-e-f-u-d-e-r”. Aquela festa (quem duvida?) estava realmente transbordando alegria. Todos (rigorosamente, todos) estavam muito contentes, muito mesmo. Radiantes até. Era um transbordar de excitação e júbilo. Um sucesso.
Já ia o sol alto quando o último conhecido qualquer de um convidado deixou a casa, e damião voltou ao subsolo da casa lentamente. Ele tomou de uma almofada velha e sentou-se à beira da mesinha de centro. Queimou mais um incenso e deixou-o deitado no chão, derretendo livremente. Sorveu um gole de vinho que sobrara no fundo de uma taça esquecida, reacendeu o narguile e recostou a cabeça confortavelmente.
Puxou um farto trago, fechou os olhos e decretou em pensamento: que comece a festa.
Da série "Catarse nossa de cada dia"
Menina: - Quero ser pobre!
Menino: - Como assim? Pobre?! Mas por quê?
Menina: - Ora, é muito simples: existem dois lados, o dos opressores e o dos oprimidos; o dos pobres e o dos ricos. Assim, entre oprimir ou ser pobre, fico com a segunda opção.
Menino: - Hum...interessante. Mas você não acha que existem outras variantes, não?
Menina: - Como assim "outras variantes"?
Menino - Não sei, é que pra mim esse pesamento bipolar sempre pareceu um pouco simplista...
Menina: - Simplista?! Como assim? Claro que não, muito pelo contrário, simplista são todas os outros pesamentos!
Menino: - Mas é que, na minha opinião, existem fatores outros a complexizar a questão; além do mais, como é possível quantificar a mais valia? Como você saberá que o seu trabalho (e sua remuneração) te faz pertencer ao grupo dos oprimidos e não dos opressores? Tudo isso não é muito abstrato?
Menina: - Suas perguntas estão ficando estranhas e tendenciosas.
Menino: É que não consigo entender...
Menina: - Ah, siceramente, não aguento mais ouvir tanta besteira! Não dá pra discutir com essas pessoas que nunca leram Marx! Vocês, senso comum, são mesmo um bando de alienados! Alienados!! Alienados!!!
Menino: - Mas era só uma pergunta...
Menina: - Calaaboca, Alienado!
Menino: - Mas...
Menina: - Calaaboca!
Para o texto “Passeando” de Luis Pereira

Li o texto “Passeando” de Luis Pereira neste post de Sandro aí de baixo (“Da dureza à maciez”). Fui comentar, mas o comentário se tornou muito importante pra mim (além de muito grande), então decidi colocar aqui, na forma de texto.
“Minha definição pra este texto: lindamente angustiante (ou: pétala de uma tonelada). Ele define (através da Beleza com letra maiúscula) a atual fase da minha (querida) Angústia.
Vou explicar. Em agosto deste ano, eu comecei a escrever num caderno velho tudo o que eu estava sentido naquela época. Vou digitar aqui a primeira coisa que escrevi:
‘Minha oração de hoje será este texto.
Por que tenho que viver uma vida sem sentido, se eu já sei da maneira que quero viver?
Tenho 23 anos. Se viver até os 73 anos, só terei mais 50 anos pra viver. Já estou 1/3 morto. 23 anos já acabaram. Deles eu só tenho lembranças, aprendizados, mas vida mesmo, tempo já não tenho mais nenhum desses anos.
Sim, só tenho mais 2/3 de vida pra viver. É muito pouco tempo. Não que vá acabar tudo, porque eu sei que não acaba.
Na verdade, eu posso morrer antes também. Se morrer com 29 anos, só terei mais 6 anos pra viver. Minto. Terei 5 anos e alguns dias somente.
Então, pra que cargas d’água eu vou perder minha vida em uma vida vivida estupidamente? Por que afinal eu tenho medo? Medo de quê? Medo de ter uma vida plena e feliz? Medo eu tenho que ter (e tenho muito na verdade) de viver uma vida que não me agrade.
Acordar tarde ainda cansado, trabalhar em um trabalho que não me satisfaça. Buscar uma coisa que só me trás sofrimento e frustração: dinheiro. Não preciso de um celular tocando o tempo todo. Não preciso do melhor carro do mundo. Não preciso de muitas coisas pra ser feliz. Preciso de paz de espírito. Preciso me sentir útil na vida das pessoas. Preciso ter pessoas para amar e ser amado por elas. Preciso, e preciso muito, de pessoas para conversar. Preciso de um canto e um momento só meu, todo dia, mas sem sono, sem pressa, sem a pressão do tempo que me oprime tanto.
Acho que é por isso que preciso morar numa cidade pequena, onde as pessoas se conheçam bem, onde o tempo não oprima tanto. Preciso ficar mais perto do que parece estar perto de Deus. O dinheiro, os juízes e advogados corruptos, a maluquice da cidade grande, a pressa, as pessoas puxa-sacos, as festas de gente chata e arrogante, os ambientes intoxicados não estão perto de Deus. Não preciso muito pra saber disso, meu coração sabe.
Eu preciso encontrar pessoas que pensem como eu.
Preciso criar um jeito de viver, me alimentar (e que se dane as regras gramaticais que artificializam a língua), me locomover, morar, me vestir, sem precisar contrariar os desejos da minha alma.
Poderia ser uma comunidade. Ou um projeto. Não, acho legal uma comunidade. Várias famílias, vários amigos morando em um lugar. Estas pessoas gostam de viver da maneira mais livre possível. Gostam de buscar coisas que alimentem seus Espíritos. Não gostam de opressão, sejam elas morais, físicas ou psicológicas. Essas pessoas gostam de ajudar as outras pessoas. Gostam de ajudar todas as coisas’
Parabéns pelo texto (sublime), mas parabéns principalmente pela oportunidade que você tem de saber disso tudo nesta vida.
Espero que não sejamos velhos frustrados.”
(...)
Se dêem um presente também: http://barco-iris.blogspot.com/
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
A Formiga Teresa e a Mamãe Querida.

terça-feira, 27 de outubro de 2009
Galeano... (d)O teatro do bem e do mal
Os Invisíveis
Aquilo começou com uma explosão de violência. Poucos dias antes do natal, numerosos famintos tomaram de assalto os supermercados. Entre os desesperados, como costuma ocorrer, infiltraram-se uns quantos delinqüentes. E nessas horas de caos, enquanto corria o sangue, o presidente da Argentina falou pela televisão. Palavra mais ou palavra menos, disse: a realidade não existe, as pessoas não existem.
E então nasceu a musica. Começou devagarinho, soando nas cozinhas de algumas casas, colheres batiam nas panelas, e saiu pelas janelas, pelas sacadas. E foi-se multiplicando de casa em casa e ganhou as ruas de Buenos Aires. Cada som se uniu a outros sons, pessoas se uniram com pessoas, e na noite explodiu o concerto da revolta coletiva. Ao som das panelas e sem outras armas senão estas, a multidão invadiu os bairros, a cidade, o país. A policia respondeu a balaços. Mas as pessoas, inesperadamente poderosas, derrubaram o governo.
...
Os invisíveis, fato raro, tinham ocupado o centro do palco.
Não só na Argentina, não só na América Latina, o sistema está cego. O que são as pessoas de carne e osso? Para os mais notórios economistas, números. Para os mais poderosos banqueiros, devedores. Para os mais eficientes tecnocratas, incômodos. E para os mais exitosos políticos, votos.
O movimento popular que defenestrou o presidente De la Rúa foi uma prova de energia democrática. A democracia somos nós, disseram os populares, e estamos fartos. Ou acaso a democracia consiste somente no direito de votar a cada quatro anos? Direito de eleição ou direito de traição? Na Argentina, como em tantos outros países, as pessoas votam, mas não elegem. Votam em um, governa outro: governa o clone.
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No governo, o clone faz ao contrario tudo o que o candidato prometeu durante a campanha eleitoral. Segundo a célebre definição de Oscar Wilde, cínico é aquele que conhece o preço de tudo e o valor de nada. O cinismo se disfarça de realismo; e assim se desprestigia a democracia.
As pesquisas indicam que a América Latina, hoje em dia, é a região do mundo que menos acredita no sistema democrático de governo. Uma dessas pesquisas, publicada pela revista The Economist, revelou a queda vertical da fé da opinião pública na democracia, em quase todos os países latino-americanos: segundo esses dados, recolhidos há meio ano, só acreditavam nela seis de cada dez argentinos, bolivianos, venezuelanos, peruanos e hondurenhos, menos da metade dos mexicanos, nicaragüenses e chilenos, não mais do que um terço de colombianos, guatemaltecos, panamenhos e paraguaios, menos de um terço de brasileiros e apenas um de cada quatro salvadorenhos.
Triste panorama, caldo gordo para os demagogos e os messias fardados: muita gente, sobretudo muita gente jovem, sente que o verdadeiro domicílio dos políticos é a cova do Ali Babá e os quarenta ladrões.
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Uma lembrança de infância do escritor argentino Héctor Tizón: na Avenida de Mayo, em Buenos Aires, seu pai mostrou-lhe um homem que, na calçada, atrás de uma mesinha, vendia pomadas e escovas para lustrar sapatos:
- Aquele senhor se chama Elpidio González. Olha bem. Ele foi vice-presidente da república.
Eram outros tempos. Sessenta anos depois, nas eleições legislativas de 2001, houve uma enxurrada de votos em branco ou anulados, algo jamais visto, um recorde mundial. Entre os votos anulados, o candidato triunfante era o pato Clemente, um famoso personagem de historia em quadrinhos: como não tinha mãos, não podia roubar.
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Talvez a América Latina jamais tenha sofrido um esbulho político comparável ao da década passada. Com a cumplicidade e o amparo do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, sempre exigentes em matéria de austeridade e transparência, vários governantes roubaram até ferraduras de cavalos a galope. Nos anos das privatizações, leiloaram tudo, até as lajotas das calçadas e os leões do zoológico; e o produto do leilão se evaporou. Os países foram vendidos para pagamento da dívida externa, segundo mandavam os que de fato mandam, mas a dívida, misteriosamente, multiplicou-se, nas mãos ligeiras de Carlos Menem e muitos outros de seus colegas. E os cidadãos, os invisíveis, ficaram sem países, com uma imensa dívida para pagar, pratos quebrados da festa alheia.
Os governos pedem permissão, fazem seus deveres e prestam exames: não diante dos cidadãos que votam, mas diante dos banqueiros que vetam.
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Agora que estamos todos em plena guerra contra o terrorismo internacional, cabem certas dúvidas. O que devemos fazer com o terrorismo de mercado, que está castigando a imensa maioria da humanidade? Ou não são terroristas os métodos dos altos organismos internacionais, que em escala planetária dirigem as finanças, o comércio e o resto? Acaso não praticam a extorsão e o crime, ainda que matem por asfixia e de fome e não por bomba? Não estão despedaçando os direitos dos trabalhadores? Não estão assassinando a soberania nacional, a industria nacional, a cultura nacional?
A Argentina era a aluna mais aplicada do Fundo Monetário, do Banco Mundial e da Organização Mundial do Comércio. E foi o que se viu.
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Damas e cavalheiros: primeiro os banqueiros. E onde manda capitão, não manda marinheiro. Palavras mais ou palavras menos, esta foi a primeira mensagem que o presidente George W. Bush enviou à Argentina. Da cidade de Washington, capital dos Estados Unidos e do mundo, Bush declarou que o novo governo argentino deve “proteger” seus credores e o fundo Monetário Internacional e levar adiante uma política de “maior austeridade”.
Enquanto isso, o novo presidente provisório argentino, que substitui De la Rua até as próximas eleições, meteu os pés pelas mãos em sua primeira declaração à imprensa. Um jornalista perguntou o que iria priorizar, a dívida ou as pessoas, e ele respondeu: “A dívida”. Dom Sigmund Freud sorriu em seu túmulo, mas Adolfo Rodríguez Saá logo corrigiu a resposta. Pouco depois, anunciou que suspenderia os pagamentos da dívida e destinaria esse dinheiro à criação de fontes de trabalho para as legiões de desempregados.
A dívida ou as pessoas, esta é a questão. E agora as pessoas, os invisíveis, exigem e vigiam.
...
Há coisa de um século, Dom José Batlle y Ordóñez, presidente do Uruguai, assistia a uma partida de futebol. E comentou:
- Que bonito seria se houvesse 22 espectadores e dez mil jogadores.
Talvez se referisse à educação física, que ele promoveu. Ou estava falando, quem sabe, da democracia que imaginava.
Um século depois, na Argentina, o país vizinho, muitos manifestantes envergavam a camiseta de sua seleção nacional de futebol, seu sentido símbolo de identidade, sua alegre certeza de pátria: vestindo a camiseta, invadiram as ruas. As pessoas, fartas de serem espectadoras de sua própria humilhação, invadiram a cancha. Não vai ser fácil desalojá-las.
Eduardo Galeano
(2001)
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Da dureza à maciez

Divido, pois:
http://barco-iris.blogspot.com/
Que aproveitem.
[Uma minúscula homenagem ao eterno "comandante", Che]
