segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Da série: Baixe a bola, humano! (Parte 02)

Dois dedos de cerveja, um de macaco


Na roda de capoeira formada no Jardim dos Namorados, damião alimentava o coro daquela ladainha manjada, marcando na palma de Bimba (é um, dois, três!):

"Paranaê, paranaê, Paraná

Você diz que sabe tudo (Paraná!),

lagartixa sabe mais (Paraná!);
ela sobe na parede (Paraná!),
coisa que você não faz (Paraná!);

Paranaê, paranaê, Paraná!"
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No zoológico de Ondina, aproveitando os minutinhos em que esquecera a tristeza que era ver os bichos enclausurados, damião contemplava (todo abestalhado) os macacos, com seus saltos e demais peripécias inimagináveis, enquanto saboreava o último naco de batata-frita.

O "macaco" (movimento de capoeira que ainda não conseguia executar, embora estivesse treinando havia mais de ano), que era tão mais fácil, não chegava ao chulé das manobras dos bichos dali (nem mesmo aquele todo bonito, feito pelo seu mestre Comprido). Aliás, nem o "macaco" de Pompeu, que era o mais lindo que já vira, fazia frente aos pulos gigantescos dos macacos de Ondina.

Uma flecha desgovernada rompe os seus devaneios. Era a graça do amigo Joe, que fez todo o grupo de amigos cair na gargalhada, impressionados:

"Ó pra lá, rapaz, o macaco metendo o dedo no cu e cheirando! Parece gente mesmo! há há há há há há!"
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A cabeça de damião trabalhava a mil (claro), enquanto o rapaz voltava pra casa, já a noite caída. Lá em cima, no topo do cucuruto, uma bandinha de músicos, (mais berimbau, pandeiro e timbau) tocava baixinho (em plano de fundo) a ladainha da lagartixa. E ele lembrou da aula de biologia e de Van der Waals.

Depois (ou ao mesmo tempo, quem sabe?), refletiu sobre os amigos no zoológico. Todo mundo saiu exaltando o macaco. Não a sua habilidade de subir uma árvore quilométrica em segundos, nem os pulos de três metros que mandavam a Sra. Gravidade de volta às jogatinas de Buraco.

O povo gostou mesmo, pensou damião, da semelhança entre o macaco e o bicho-homem. Sobretudo da sua incrível capacidade de meter o dedo no cu e cheirar.
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domingo, 8 de novembro de 2009

Dois corpos que caem, para Devapi



Por simples acaso, dois desconhecidos encontraram-se despencando juntos do alto do Edifício Itália, no centro de São Paulo.
- Oi - disse o primeiro, no alvoroçado início da queda.- Eu me chamo João. E você?
- Antônio- gritou o segundo, perfurando furiosamente o espaço.
E, só para matar o tempo do mergulho, começaram a conversar.
- O que você faz aqui? – perguntou Antônio.
- Estou me matando- respondeu João.- E você?
- Que coincidência! Eu também. Espero que desta vez dê certo, porque é minha décima tentativa. Há anos venho tentando. Mas tem sempre um amigo, um desconhecido e até bombeiro que impede. Você afinal está se matando por quê?
- Por amor- respondeu João, sentindo o vento frio no rosto.- Eu, que amava tanto, fui trocado por um homem de olhos azuis. Infelizmente só tenho estes corriqueiros olhos castanhos...
- E não lhe parece insensato destruir a vida por algo tão efêmero como o amor? – ponderou Antônio, sentindo a zoada que o acompanhava à morte.
- Justamente. Trata-se de uma vingança da insensatez contra a lógica- gritou João num tom quase triunfante. - Em geral é a vida que destrói o amor. Desta vez, decidi que o amor acertaria contas com a vida!
- Poxa – exclamou Antônio- você fez do amor uma panacéia!
- Antes fosse – replicou João, com um suspiro.- Duvidoso como é, o amor me provocou dores horríveis. Nunca se sabe se o que chamamos amor é desamparo, solidão doentia ou desejo incontrolável de dominação. O que na verdade me seduz é que o amor destrói certezas com a mesma incomparável transparência com que o caos significante enfrenta a insignificância da ordem. Não, o amor não é solução para a vida. Mas é culminância. Morrer por ele me trouxe paz.
Ante o vertiginoso discurso, ambos tentaram sorrir contra a gravidade.
- E você, como se sente? – perguntou João a Antônio.
- Oh, agora estou plenamente satisfeito.
- Então por que busca a morte?
- Bom- respondeu Antônio- me assustou descobrir um fiasco primordial: que a razão tem demônios que a própria razão desconhece. Daí, preferi mergulhar de vez no mistério.
- Sim, da razão conheço demasiado horrores. Mas que mistério é esse tão importante a ponto de merecer sua vida?
- Não sei- respondeu Antônio.- Mistério é mistério.
- Mas morto você não desvendará o mistério!- protestou João.
- Por isso mesmo. O fundamental no mistério é aguçar contradições, e não desvendar. Matar-me, por exemplo, é bom na medida que me torna parte do enigma e, de certo modo, o agudiza. Tem a ver com a fé, que gera energias para a vida. Ou para a história, quem sabe...
- Taí um negócio que perdi: a fé. Deus para mim...- e João engasgou.
- Ora – revidou Antônio vivamente.- A fé nada tem a ver com Deus, que se reduziu a uma pobre estrela anã de energias tão concentradas que já nem sai do lugar. Deus desistiu de entender os homens, e virou também indagador. Sem Deus nem Razão, a única fé possível é mergulhar neste abismo do mistério total.
- Mas para isso é preciso ao menos saber onde está o mistério- insistiu João com os cabelos drapejando ao vento.
- Ué, o mistério está em mim, por exemplo, que me mato para coincidir comigo mesmo. Mas há mistério também em você: seu morrer de amor é o mais impossível ato de fé. Graças a ele, você participa do mistério. Porque se apaixonou pelos abismos.
João olhou com olhos estatelados, ao compreender. E Antônio, que já faiscava na semi-realidade da vertigem, gritou com todas as forças:
- Há sobretudo este mistério maior de estarmos, na mesma hora e local, cometendo o mesmo gesto absurdo e despencando para a mesma incerteza, por puro acaso. Além de cúmplices, a intensidade deste mergulho nos tornou visionários. Você não vê diante de si o desconhecido? É que já estamos perfurando a treva.
E como tudo de fato reluzia, João também ergueu a voz:
- Sim, sim. É espantoso o brilho do absurdo.
- E agora- disse Antônio bem diante do rosto de João- falemos um pouco da permanência. Você gosta dos meus olhos azuis?
Foi quando os dois corpos se estatelaram na Avenida São Luís.

João Silvério Trevisan

abril/1982

Sobre Lula, o analfabeto

TROPICáLIA SOB O SIGNO DE ESCORPIãO

No mesmo dia que Caetano fazia sua entrevista de capa, muito bela como sempre, no “Caderno de Cultura do Estadão”, o Ministro Ecologista Juca Ferreira publicava uma matéria na Folha na sessão Debates. Um texto extraordinariamente bem escrito em torno da Cultura, como Estratégia, iniciada no 1º Governo de Lula ao nomear corajosa e muito sabiamente Gilberto Gil como Ministro da Cultura e hoje consolidada na gestão atual do Ministro Juca. Hoje temos pela primeira vez na nossa história um corpo concreto de potencialização da cultura brazyleira: o Ministério da Cultura, e isso seu atual Ministro soube muito bem fazer, um CQD em seu texto. Por outro lado meu adorado Poeta Caetano, como sempre, me surpreendeu na sua interpretação de Lula como analfabeto, de fala cafajeste, abrindo seu voto pra Marina Silva.

Nós temos muitas vezes interpretações até gêmeas, mas acho caetanamente bonito nestes tempos de invenção da democracia brazyleira, que surjam perspectivas opostas, mesmo dentro deste movimento que acredito que pulsa mais forte que nunca no mundo todo, a Tropicália.

Percebi isto ao prefaciar a tradução em português criolo = brazyleiro do melhor livro, na minha perspectiva, claro, escrito sobre a Tropicália: “Brutality Garden”, Jardim Brutalidade, de Chris Dunn, professor de literatura Brazyleira na Tulane University de New Orleans.

Acho, diferentemente de Caetano, que temos em Lula o primeiro presidente Antropófago brazyleiro, aliás Lula é nascido em Caetês, nas regiões onde foi devorado por índios analfabetos o Bispo Sardinha que, segundo o poeta maior da Tropicália, Oswald de Andrade, é a gênese da história do Brazil. Não é o quadro de Pedro Américo com a 1ª Missa a imagem fundadora de nossa nação, mas a da devoração que ninguém ainda conseguiu pintar.

Lula começou por surprender a todos quando, passando por cima das pressões da política cultural da esquerda ressentida, prometeica, nomeou o Antropófago Gilberto Gil para Ministro da Cultura e Celso Amorim, que era macaca de Emilinha Borba, para o Ministério das relações exteriores, Marina Silva para o meio ambiente e tanta gente que tem conquistado vitórias, avanços para o Brasil, pelo exercício de seu poder-phoder humano, mais que humano.

Phoderes que têm de sambar pra driblar a máquina perversa oligárquica, podre, do Estado brasileiro. Um estado Oligárquico de fato, dentro de um Estado Republicano ainda não conquistado para a “res pública”. Tudo dentro dum futebol democrático admirável de cintura. Lula não para de carnavalizar, de antropofagiar, pro país não parar de sambar, usando as próprias oligarquias.

Lula tem phala e sabedoria carnavalesca nas artérias, tem dado entrevistas maravilhosas, onde inverte, carnavaliza totalmente o senso comum do rebanho. Por exemplo quando convoca os jornalistas da Folha de São Paulo a desobedecer seus editores e ouvir, transmitindo ao vivo a phala do povo. A Interpretação da Editoria é a do Jornal e não a da liberdade do jornalista. Aí , quando liberta o jornalista da submissão ao dono do jornal, é acusado de ser contra a liberdade de expressão. Brilha Maquiavel, quando aceita aliança com Judas, como Dionísios que casa-se com a própria responsável por seu assassinato como Minotauro, Ariadne. É realmente um transformador do Tabu em Totem e de uma eloquência amor-humor tão bela quanto a do próprio Caetano.

Essa sabedoria filosófica reflete-se na revolução cultural internacional que Lula criou com Celso Amorim e Gil, para a política internacional. O Brasil inaugurou uma política de solidariedade internacional. Não aceita a lógica da vendetta, da ameaça, da retaliação. Propõe o diálogo com todos os diabos, santos, mortais, tendo certa ojeriza pelos filisteus como ele mesmo diz. Adoro ouvir Lula falar, principalmente em direto com o público como num Teatro Grego. É um de nossos maiores atores. Mais que alfabetizado na batucada da vida, Lula é um Intérprete dela: a Vida, o que é muito mais importante que o letrismo. Quantos eruditos analfabetos não sabem ler os fenômemos da escrita viva do mundo diante de seus olhos? Eu abro meu voto para a linha que vem de Getúlio, de Brizola, de Lula: Dilma, apesar de achar que está marcando em não enxergar, nisto se parece com Caetano, a importância do Ministério da Cultura no Governo Lula. Nos 5 dedos da mão em que aponta suas metas, precisa saber mais das coisas, e incluir o binômio Cultura & Educação. Quanto a Marina Silva, quando eu soube que se diz criacionista, portanto contra a descriminalização do aborto e da pesquisa com células-tronco, pobre de mim, chumbado por um enfarto grave, sonhando com um coração novo, deixei de sequer imaginar votar nela. Fiz até uma cena na “Estrela Brasyleira a Vagar – Cacilda !!” para uma personagem, de uma atriz jovem contemporânea que quer encarnar Cacilda Becker hoje, defendo este programa tétrico.

Gosto muito de Dilma, como de Caetano, onde vou além do amar, vou pra Adoração, a Santa adorada dos deuses. Acho a afetividade a categoria política mais importante desta era de mudanças. “Amor Ordem e Progresso”. O Amor guilhotinado de nossa Bandeira virou um lema Carandiru: Ordem e Progresso, só.

Apreendi no livro de Chris Dunn que os americanos chamam esta calegoria de laços homossociais, sem conotação direta com o homoerotismo, e sim com o amor a coisas comuns a todos como a sagração da natureza, a liberdade e a Paixão pelo Amor Energia, Santíssima Eletricidade. Sinto que nestas duas pessoas que gosto muito, Caetano e Dilma, as fichas da importância cultural estratégica, concreta, da Arte e da Cultura, do governo Lula, ainda não caíram.

A própria pessoa de Lula é culta, apesar de não gostar, ainda, de ler. Acho que quando tiver férias da Presidência vai decicar-se a estudar e apreender mais do que já sabe em muitas línguas. Até hoje ele não pisou no Oficina. Desejo muito ter este maravilhoso ator vendo nossos espetáculos. Lula chega a hierarquia máxima do Teatro: a que corresponde ao Papa no Catolicismo: o Palhaço. Tem a extrema sabedoria de saber rir de si mesmo. Lula é um escândalo permanente para a mente moralista do rebanho. Um cultivador da vida, muito sabido, esperto. Não é a toa que Obama o considera o político mais popular do mundo.
Caetano vai de Marina, eu vou de Dilma. Sei que como Lula ela também sente a poesia de Caetano, como todos nós, pois vem tocada pelo valor da criação divina dos brazyleiros. Esta “estasia”, Amor-Humor, na Arte, que resulta em sabedoria de viver do brasileiro: Vida de Artista. Não há melhor coisa que Exista!

Lula faz Política Culta e com Arte. Sabe que a Cultura de sobrevivência do povo brasileiro não é Super, é Infra Estrutura. Caetano sabe disso, é uma imensa raiz antenada no rizoma da cultura atual brazyleira renascente de novo, dentro de nós todos mestiços brazileiros. Fico grato a Caetano ter me proporcionado expor assim tudo que eu sinto do que estamos vivendo aqui agora no Brasil, que hoje é um País de Poesia de Exportação como sonhava Oswald de Andrade, que no Pau Brasil, o livro mais sofisticado, sem igual brazyleiro canta:

“Vício na fala
Pra dizerem milho dizem mio
Pra melhor dizem mió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhado”

Zé Celso
SamPã, 6 de novembro
sob o signo de Escorpiãos
exo da cabeça aos pés
minha Lua de Ariano
EVOÉROS

O envelhecer-por Maria Bethânia


“Você vai envelhecendo. Os anos vão passando. A sua voz já está numa outra emissão, o chão do palco que você pisa é diferente. Tudo vai andando. Envelhecer é sempre novidade.(...) Acho uma burrice achar que é repetição e que as coisas vão perdendo não sei o quê. [Envelhecer] é um privilégio. Já imaginou quantas estrelas vão ser descobertas e eu estou viva pra ver? Estar andando no tempo é uma benção.” (Maria Bethânia em entrevista à Folha de São Paulo, Ilustrada, 01/10/2009)

sábado, 7 de novembro de 2009

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Os Pingos da Chuva (*)


Os Pingos da Chuva (*)
(Os Novos Baianos - Pepeu Gomes - Moraes Moreira)

Quando o céu estiver preto
e das nuvens até as sombras assombram. (bis)
É só o reflexo do que está acontecendo.
Só está faltando fósforo. Me dê aí!
Não esqueça que nesse momento
o vento sacode as árvores
e o clima que fica e o ar agitado.
Dizendo tudo o que pode acontecer. Não escureça nem esquente a cabeça.
Eu sei que você tem argumentos de querer:
O sol pra pegar sua praia,
pra bater sua bola.
E a lua pra ver sua mina,
ou só pra ir ali na esquina.
Sem rima, sem rima!
Faça como eu que vou como estou,
porque só o que pode acontecer...
É os pingo da chuva me molhar,
é os pingo da chuva me molhar!
É os pingo da chuva me molhar,
é os pingo da chuva me molhar!


terça-feira, 3 de novembro de 2009

“OS PAIS DEVEM MANTER DIÁLOGO ABERTO COM OS FILHOS”

"Uma mistura lúcida de um pouco daqui e dali...
No Brasil inteiro, o uso de drogas está crescendo entre os jovens do ensino fundamental e médio. Raramente os professores sabem abordar o assunto. Como a política é a de prevenção ao uso, quando um aluno é flagrado, frequentemente é expulso.
“É para não ‘contaminar’ os outros”, critica Denise.
Uma pena. Afinal, é também no contexto escolar, que a gente tem que investir na redução de danos. É importante problematizar a questão, mostrando aos jovens quais são as drogas, seus efeitos e consequências, para no caso do uso, fazê-lo de forma mais consciente.
A droga sozinha não tem efeito demoníaco.
É preciso sempre fazer a sua contextualização. A droga junto com uma pessoa em conflito é que vai facilitar o seu uso.
Depois, dependendo da maneira como essa droga atua na vida daquela pessoa e do seu contexto familiar, é que vai se tornar problemática ou não.
“Por isso, é preciso se dialogar de forma ampla com os filhos”, aconselha Denise.“E se de repente meu filho começar a usar?”“Será que proibir vai ajudar? Será melhor permitir, para saber o que está acontecendo? A família tem de definir a estratégia. Aí, é importante também discutir com um profissional”, diz Denise. “Não há uma recomendação única. Eventualmente, quando o o uso se torna problemático, é preciso até a contenção.”
Paulo Teixeira tem seis filhos: “Os pais devem manter diálogo aberto com os filhos e acompanhá-los nos diferentes momentos de vida. Acredito na educação aberta, na prevenção. Falo a eles dos perigos e espero que me contem o que fazem para que eu possa aconselhá-los”.
Nota 1: Drogas é um tema bastante complexo. Nesta mistura lúcida , estamos (eu e eu mesmo)apenas começando a discussão. Outras virão! Já que esse assunto nos aguça!
Nota 2: É questão de saúde pública.
Nota 3: A psicóloga Denise Serafim, assessora técnica do Ministério da Saúde , se dispôs a responder às dúvidas dos leitores sobre redução de danos, e Paulo Teixeira, colaborador.
Nota 4: não consegui colocar a foto...não deu!
Akele abraço!!!--*

palavra destilada - Graciliano Ramos.

“Vivo agitado, cheio de terrores, uma tremura nas mãos, que emagreceram. As mãos já não são minhas: são mãos de velho, fracas e inúteis. As escoriações das palmas cicatrizaram. Impossível trabalhar. Dão-me um ofício, um relatório, para datilografar, na repartição. Até dez linhas vou bem. Daí em diante a cara balofa de Julião Tavares aparece em cima do original, e os meus dedos encontram no teclado uma resistência mole de carne gorda. E lá vem o erro. Tento vencer a obsessão, capricho em não usar a borracha. Concluo o trabalho, mas a resma de papel fica muito reduzida. A noite fecho as portas, sento-me à mesa da sala de jantar, a munheca emperrada, o pensamento vadio longe do artigo que me pediram para o jornal. Vitória resmunga na cozinha, ratos famintos remexem latas e embrulhos no guarda-comidas, automóveis roncam na rua. Em duas horas escrevo uma palavra: Marina. Depois, aproveitando letras deste nome, arranjo coisa, absurdas: ar, mar, rima, arma, ira, amar. Uns vinte nomes. Quando não consigo formar combinações novas traço rabiscos que representam uma espada, uma lira, uma cabeça de mulher e outros disparates. Penso em indivíduos e em objetos que não têm relação com os desenhos: processos, orçamentos, o diretor, o secretário, políticos, sujeitos remediados que me desprezam porque sou um pobre-diabo. Tipos bestas. Ficam dias inteiros fuxicando nos cafés e se espreguiçando, indecentes. Quando avisto essa cambada, encolho-me, colo-me às paredes como um rato assustado. Como um rato, exatamente. Fujo dos negociantes que soltam gargalhadas enormes, discutem política e putaria.”


Passagem do livro "Angústia" de Graciliano Ramos.Comunista, Nordestino, preso, jornalista, escritor, ateu, testemunha da seara vermelha. Memórias do cárcere. Memórias da seca. Memórias do Nordeste. Sem efeito nem efeite. Sem barrocagem nem adjetivagem. Nunca vi quem domasse melhor a palavra bruta.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Porque além dos homens, outros seres incríveis também habitam o planeta.

"A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem."

Arthur Shopenhauer

domingo, 1 de novembro de 2009

"Eu conheço apenas uma virtude, que é a consciência"

"Ser consciente não é um estado momentâneo em nossa existência. Ser consciente refere-se à nossa maneira de existir no mundo. Está relacionado à forma como conduzimos nossas vida e, especialmente, às ligações emocionais que estabelecemos com as pessoas e as coisas no nosso dia-a-dia.
Ser consciente é ser capaz de amar.

(Ana Beatriz Barbosa Silva, Mentes Perigosas).