
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
da série: entre Atómos e deus (2)

da série: entre Atómos e deus (1)

Na próxima vez que você rezar, reze para os átomos que formam o corpo da pessoa que você mais ama no mundo. Num outro dia, reze para os átomos que formam a pia do banheiro de um lugar público qualquer e, num terceiro dia, reze novamente para os átomos que formam o corpo da pessoa que você mais ama no mundo: o amor é um comportamento atômico bem esquisito.
Que Fim Levaram Todas As Flores? - P/ CS

terça-feira, 8 de dezembro de 2009
nunca mais o barão pisou na terra
Um sorriso pintado a noite inteira
O cinema do fogo
Numa tarde embalada de poeira
Circo pegando fogo
Palhaçada.
Circo pegando fogo
E a lona rasgada no alto
No globo os artistas da morte
E essa tragédia que é viver
E essa tragédia.
Tanto amor que fere e cansa.
- José Paes da Lira.
domingo, 6 de dezembro de 2009
Seja Bem Vinda!
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Aos trinta e três anos de idade, numa tarde cinza de domingo, bateu-me à porta uma senhora que se identificou como Angústia das Graças.
Disse-me que seu pai, Feliciano Dias das Graças, filho de Temporino de Jesus e Maria das Dores, deu-lhe esse nome porque ela tinha cara de sorte. Disseram-lhe: “com aquela linda carinha de sorte, não tinha como querer nome melhor”.
Meu primeiro impulso foi inventar uma desculpa qualquer, dizer que iria sair pra comer pipocas com amigos, mas a senhora era esperta:
_Sem desculpas meu filho, se nunca deixar eu entrar na sua casa, meus filhos continuarão importunando você. Nem com a morte, vão deixar-lhe em paz.
Diante do profetismo seguro daquela graciosa senhora e do imenso medo que eu tinha de seus filhos, velhos conhecidos meus, convidei-a para entrar, ofereci um lugar pra sentar, um pedaço de bolo de chocolate que sobrou do meu último aniversário, mas ela não aceitou.
_Não gosto mais de coisas que lembrem o tempo. Meu pai morreu e sinto falta dele.
Encaixei-me numa daquelas poltronas velhas da minha sala e comecei a conversa com uma voz cansada e medrosa:
_Então, o que a senhora faz aqui?
_É exatamente o que eu queria saber? Por que me chama tanto? Por que me procura tanto, mas nunca ouve o que digo? – falou-me com uma expressão amorosa e preocupada.
Fiquei algum tempo parado, sem falar nada. Fui até o meu quarto, peguei uns caderninhos velhos que estavam perdidos dentro de um armário mais velho ainda, uns comprimidos dourados que guardava pra uma emergência qualquer e um livro profético que não lembro mais do nome. Foi difícil segurar todos aqueles objetos com apenas duas mãos, mas levei-os até a minha sala grande.
_Estão aqui.
A senhora os apanhou com calma, colocou-os dentro de uma sacola florida e levantou-se. Advertiu-me de que não era saudável mais fazer aquilo. Deu-me um cartão de visita e foi até a porta.
_Na próxima vez, ligue-me. Verá que tudo será mais fácil.
A senhora virou-se e foi embora.
(...)
Foi uma ótima tarde. Bem triste, é verdade, mas ótima, já que depois dela nunca mais temi a visita daquela senhora.
Blues da Piedade
"Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm
Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia
Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem
Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem"
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Toquem Raul!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
O pé de pau!

"Façam completo silêncio, paralisem os negócios
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio."
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Ser ou não ser civilizado...
Civilizado?Sabendo disso, o civilizado sabe também que o único motivo que pode racionalmente ser invocado para negar a alguém o direito a se comportar de determinada maneira é que tal comportamento feriria os iguais direitos de outras pessoas.
A lei da gravidade, por exemplo, não diz que todos os corpos que têm massa devem se atrair de determinado modo e sim que se atraem desse modo. Se for descoberto que determinados corpos têm massa e, no entanto, não se atraem do modo previsto, não serão esses corpos que estarão errados, mas a lei da gravidade. Assim também, se uma "lei natural" diz que os indivíduos do mesmo sexo não sentem atração erótica uns pelos outros, basta abrir os olhos para ver que essa "lei" está errada, ou melhor, não é lei, não existe.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009

"— Olá, tem alguém aí?
Serve eu?
— Quem é você?
Eu sou você!
— Como assim?
Eu sou você no mundo das letras.
— Letras? O que é isso?
É a forma que eu tenho no seu mundo.
— Quer dizer que eu sou letras?
Sim e não. Você também tem pernas e braços.
— O que é isso?
Não dá pra explicar com letras.
— Por que não?
Porque não existe no seu mundo
— Mas se eu sou você!?
Você sou eu reduzido.
— Reduzido?
Reduzido a letras.
— Lá vem você com essa história de novo!
Ué! Foi você quem começou!
— Mas se eu sou você, como posso ter começado?
Não pode.
— Então quem começou?
Fui eu.
— Mas cadê o meu direto de escolha?
Está aqui, comigo.
— Olha, se você for embora, eu continuo. Certo?
Certo.
— Então sou mais do que você, pois você passa, e eu fico!
Quem disse isso?
— Você disse!
O que fica é o que fui, não o que sou.
— E será que posso conhecer você?
Claro que pode!
— Como faço isso?
Livre-se do travessão.
— Não consigo. Tenho medo!
Não pode ter medo! Você sou eu. Lembra?
— É mesmo! E você não tem medo?
Medo de quem?
Pronto. Tirei! E aí. Saiu?
Saiu.
Mas não percebi nada.
Pois é!
Quer dizer que agora somos um?
Sempre fomos."