
Lema: Sem Lenço sem Documento, sempre a favor do vento e indo até aonde o coração permitir.
Saída de Salvador: 26 de dezembro de 2010.
Integrantes: Eu, Cotrim, João Lins, Xis, Sandro, Testa e quem mais desejar.

Caros amigos,
Eu preciso lhes contar
Ando sofrendo de uma doença deveras grave
E esta afeta em cheio o meu coração...
Há nela momentos de profundo torpor
E lágrimas doces que me escorrem a face
Há nela também momentos de profunda ansiedade
Assim então ataca-me as tripas
Suspende-me o ar!
Neste leito em que me encontro
Sinto a brisa leve preparada para os que anseiam repousar.
Sinto dizer,
Mas sofro de vida
Ela é tão intensa,
Ela anda me queimando o peito
Quando dou por mim já incendiei
Ela, esta ingrata enfermidade
Anda se espalhando e são estrondosos os reflexos que ela imprime em mim
É uma vida sólida e pueril
Espantosamente viril,
Ela acorda-me juto com o sol, parece que durmo com galos
Nos momentos que me gelam a face,
(São os que eu mais temo)
há uma necessidade do pleno que me faz sagaz
E então respiro quando não encontro saída
Minha doença não nasceu sozinha
Ela nasceu de hábitos, hábitos consolidados
Vícios construtores de valores
Grandes rituais de pequenos momentos
Ora, tanta gentileza!
Havia de ter um efeito colateral.
Escrevo no leito em que me encontro, afinal
Quem sabe na morte o que se encontrará...
Sendo assim, remeto-lhes meus mais sinceros préstimos,
Saudações educadíssimas,
Imprimo nestas paginas o vírus que me infectou!


Diminuir a desigualdade social. Ainda somos um dos países de pior distribuição de renda no planeta, em poucos lugares há tanta diferença entre ricos e pobres. A miséria num país tão rico, os sem-teto e os sem-terra, são uma vergonha, um atestado de incompetência da sociedade brasileira e de seus muitos governos. Se não por questões humanitárias, que já deveriam ser suficientes, a sociedade brasileira poderia apoiar políticas de distribuição de renda e erradicação da miséria pensando ao menos no bem-estar de seus filhos, já que os índices de violência estão diretamente relacionados com os indicadores sociais.
Aumentar o salário dos professores. O Brasil precisa melhorar muito a qualidade do ensino, especialmente do ensino público. Acredito que a maneira mais rápida e eficiente de fazer isso é aumentar muito o salário dos professores. Internet nas escolas, boas bibliotecas e bons prédios são importantes, mas o que mais determina a boa qualidade do ensino são os bons professores, que só existirão se profissionais competentes e preparados pensarem que pode ser uma boa ideia ensinar.
Reduzir os índices de violência. Vivemos num país onde os assassinatos passam de 40 mil por ano, número que supera qualquer guerra em curso no planeta. Para quem já tem emprego, o que comer e onde morar, o pior do Brasil é a violência, o medo de sair na rua, a insônia pensando se os filhos vão chegar bem em casa. Os assassinados e os assassinos são, em sua imensa maioria, pobres e jovens, quase adultos abandonados por suas famílias e pelo Estado, sem educação, profissão ou esperança de um futuro melhor do que imaginam que lhes possa proporcionar uma arma. Como cantou Sérgio Sampaio, “um marginal que já não pode mais fugir, vai reagir, menino é bom ficar de olho aí!”
Fazer política, acreditar na política. Cresce, especialmente entre os jovens, a ideia inteiramente falsa de que todos os políticos são picaretas, que política não serve para nada e que todos são iguais. Não são. É no debate político civilizado que surgem as ideias que viram ações. Os políticos são, em sua imensa maioria, cidadãos honestos que trabalham muito e se dedicam, às vezes recebendo baixos salários, a uma tarefa fundamental na democracia. A ideia, falsa e amplamente disseminada, de que a política é um emaranhado de malfeitorias é um desastre, atraindo para a vida pública um número crescente de aproveitadores e afugentando pessoas decentes que gostariam de trabalhar pelo bem comum.
De uma oposição melhor. Que apresente alguma ideia, boa ou ruim que seja. Ideias ruins também podem apontar caminhos, ao negá-las afirmamos algo. O problema é a total falta de ideias, substituídas por um moralismo oportunista que joga para a plateia e segue pesquisas de opinião o tempo todo, a ponto de o candidato de oposição declarar, sem qualquer ironia, que o presidente – que há pouco era demonizado, chamado de corrupto, ladrão e assassino – “está acima do bem e do mal”. A impressão é que os partidos de oposição terceirizaram suas ideias, esperam para ler nos jornais o que devem dizer aos jornais. Sem uma oposição consistente, que proponha opções ou apresente ao menos uma ideia, qualquer governo se acomoda, se apequena.
Respeitar a diversidade religiosa, mas coibir a exploração da fé. É indecente que mistificadores enriqueçam à custa da fé e da miséria alheia. A intimidação de fiéis para que façam doações, frequentemente denunciada com vídeos assustadores, deveria ser um simples caso de polícia. O fato de as igrejas não pagarem impostos é um convite à maracutaia. A propriedade disfarçada de empresas de comunicação – a Constituição Brasileira proíbe que igrejas sejam proprietárias de emissoras comerciais – é uma das muitas hipocrisias nacionais, como a conivência com o jogo ilegal e o tráfico de drogas: todos sabem como e onde se dão, pouco ou nada se faz para evitá-los.
Mais cultura. Para começar, melhorando a qualidade da educação (ver “salário dos professores”) e aumentando muito o investimento na produção e difusão cultural e também na preservação do patrimônio histórico. A indústria cultural, além de “limpa”, não poluente e autossustentável, emprega profissionais de todas as áreas, com qualificação e salários, em média, mais altos que de atividades tradicionais, como a agricultura e a indústria. A cultura está diretamente relacionada com outros setores produtivos, comunicação, turismo e serviços. A riqueza cultural brasileira é imensa e o seu público consumidor, especialmente o público interno, tem grande potencial de crescimento. Uma sociedade mais escolarizada, mais bem informada e com poder aquisitivo crescente, vai consumir mais livros, mais filmes, discos, peças, vai frequentar mais museus e fazer mais turismo. A longo prazo, a indústria cultural tem mais futuro, por exemplo, que a atividade de fazer buracos e mandar minério, de navio, para a China.
Internet banda larga boa e barata para todos. A comunicação rápida e o acesso à informação são fundamentais para o desenvolvimento e para o aperfeiçoamento da democracia. O serviço de internet no Brasil é dos mais caros do mundo e alcança apenas parte do País. O serviço de internet nas grandes cidades deveria ser – e será, resta ver quando – gratuito, como a televisão aberta e o rádio.
Cuidar melhor do seu patrimônio natural. Energia e mineração são fundamentais, mas as usinas, de qualquer tipo, sempre causam algum impacto ao meio ambiente e o petróleo e outros minérios são recursos não renováveis. O Brasil precisa aprofundar, democratizar, o debate racional e consequente sobre crescimento sustentável. Não se trata (só) de preservar o mico-leão ou o boto-cor-de-rosa, trata-se de saber que espécie de futuro queremos para os nossos filhos e netos.
Mais funcionários públicos qualificados e bem remunerados. Uma lenda amplamente difundida é a de que há funcionários públicos demais. Alguém acha que há médicos demais nos postos de saúde? Há policiais demais nas ruas? Há professores demais nas escolas? Talvez haja muitos fiscais nas reservas ecológicas?
O Brasil precisa acreditar na ideia de que, com o aperfeiçoamento de sua jovem democracia, saberá descobrir, por si mesmo, do que precisa. O Brasil precisa aprender a não dar tanta atenção a criaturas que se julgam iluminadas a ponto de saber do que o Brasil precisa. O brasileiro informar-se tão bem a ponto de ficar em dúvida e decidir pensando por sua própria cabeça. O Brasil precisa acreditar que a maioria saberá escolher o que é melhor para o País e que, se achar que as coisas estão indo mal, pode fazer outra escolha em alguns anos. Chama-se democracia. Ninguém teve uma ideia melhor.
O Brasil precisa ler bons livros. É assustador o domínio da autoajuda, emocional e financeira, nas prateleiras das livrarias. Nossos excelentes romancistas, poetas, pesquisadores, jornalistas, estão soterrados por livros de espertos que prometem ensinar o leitor pobre de espírito a ser feliz em cinco dias e se tornar milionário em um ano. Espero que essa espécie de livro migre rapidamente para as versões digitais, evitando a continuada transformação de árvores em bobagens.
O Brasil precisa ler Guimarães Rosa: “Olhe: o que deveria de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem no definitivo a noção – proclamar por uma vez, artes assembleias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim davam tranquilidade à boa gente. Por que o governo não cuida? Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor por beócio. Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil e tantas misérias... Tanta gente – dá susto se saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons...” (Grande Sertão: Veredas)

É em uma conversa que se acende a alma
E se observa que as galáxias do outro
Não se desenham nas mesmas cores que as nossas
Que os sonhos dos outros nem mesmo são nossos
E que o respeito do outro
Desrespeita os nossos conceitos
E o outro,
O outro é tanto e é tão pouco
E o outro foi-se embora
Como um sopro
Isso
Um sopro
Mas um pedaço do corpo do outro
Ainda fica
Pra sempre preso no momento
De quantos momentos se fazem o mundo?
Acolho suas sugestões e me deleito no inacabado
E perpetuo o que eu não completarei
Doravante iremos, caros, caros amigos
Sair de fininho...
Sair com um fininho
Sair por um caminho fininho
Sair em rumo ao vazio...
Tudo isso me cansa
Tudo isso me consome
Só preciso por pra fora...
Seria o outro?
É em uma conversa que se acende a alma!

O amargo sabor do cipó,
Do mais depurado pó,
Combinado com a bolha pálida,
Que escorre da folha árida,
Dando nó no orvalho descansado,
Desata a placenta flácida que se rompe,
Abre as portas da percepção,
E desperta no imaturo,
O prazer duro,
De respirar ar,
A anciedade de se acalmar,
E a certeza da inexatidão.
O amargo sabor do cipó,
O que escoa da barracheira,
Apresenta o tato,
Num dado toque de dedos,
Revela a descoberta,
Da existência,
De um mundo novo,
Por debaixo da coberta.
O amargo sabor do cipó,
Que dilata a pupila da verdade,
Que dá asas a realidade,
Te fornece a percepção,
Num surto de consciência...a noção,
De que tudo poderia passar,
E mesmo estagnado,
A sensação de tempo aproveitado.
O amargo sabor do cipó,
Que do tronco,
Extrai a força desconhecida,
Te permanece ereto,
Na direção da luz perseguida,
E aceita a dor,
Como uma flor,
Que se merece, mas se esmorece.
O amargo sabor do cipó,
Que trava a língua,
Liberta a mente,
Não desmente,
Tudo que Caetano já dizia.
